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Foto: Daniel Oliveira
Posso dobrar de um lado para o outro. Pode me jogar no chão. Pisar. Pode me deixar pelos cantos. Pode me empurrar para os fundos. Posso brincar com o cachorro, com o gato ou com as crianças. Alguns adultos também gostam da minha presença. Com o passar do tempo, ganhei uns remendos, confesso. É que de tanto ir pra lá e pra cá, descosturou alguma coisa ali e outra aqui. Faz parte do processo da longevidade. Não sou imortal, mas persisto em viver. Sobrevivo a trancos e barrancos. Me dou bem em casas de sapê e em mansões. Não faço diferenças. Gosto mesmo é de ser abraçada. E quando as pessoas me abraçam, sinto que elas também gostam. Sou prática. Determinada. Olhando assim pra mim, posso parecer frágil. Engano seu. Talvez menos bela que tantas outras bonecas de porcelana que existem por aí. Tenho que admitir que não tenho o corpo de uma Barbie. Não seduzo com tantas outras. Mas nenhuma delas é tão gostosa quanto eu. Pode dormir comigo sem medo de me amassar. Se eu amarrotar, pode me passar que não me queimo. Bom mesmo é sair pra passear. Posso estar em todos os lugares que você quiser. Pode me emprestar pra alguém que tenha carinho. Não sou egoísta e nem infiel. Sempre volto para os abraços de quem me acolhe. Estou sempre com um lindo sorriso no rosto. Te espero deitada na cama ou na cabeceira. Só não me deixe dentro do armário. Gosto de ficar à mostra. Não que seja oferecida, porque não é o meu perfil. Mas prefiro ser vista para fazer as pessoas mais alegres. Sei que tenho este poder. Pouca gente passa despercebido por mim. E ninguém que já esteve comigo, é capaz de me esquecer. Posso te divertir de várias maneiras. Brinco de roda, salto em cama elástica. Te faço companhia quando está sozinho. Dou boa noite e bom dia através do meu olhar. Não existo por nenhum acaso. Não sou tóxica. Nem ofereço perigo. Não uso imãs para atrair metais. Gosto mesmo é de vestidos coloridos e cabelos de lã. De todas as cores. De cores vibrantes e momentos fascinantes. Por que eu gosto mesmo é de felicidade e nada mais.

Foto: Sophia Ferreira
Sempre gostei de desenhar. Quando criança passava horas a fio desenhando pessoas. Gostava de observá-las e transportá-las para o papel. Assim, eu sentia um pouco parte de cada uma delas. Criava traços. Olhares. Aliás, olhares era o que eu mais fazia de parecido. Duvidava de muitas coisas, mas jamais duvidei de um olhar. Ele nunca conseguiu mentir pra mim. A única parte que fala a verdade de alguém é o olhar. E eu era sincera ao reproduzir cada um deles para o meu papel. E ficava ali, imaginando se aquele desenho era um pouco do que a pessoa era de verdade. Pensava se as minhas impressões a respeito de alguém era mesmo aquela pessoa de fato. Admirava o desenho e a alegria das pessoas de verem alguém tão jovem desenhando com tanta dedicação. Aquele era o início da minha busca pelas pessoas. E uma maneira de criá-las de uma maneira mais pura e feliz. Fazê-las mais sinceras e honestas, como o olhar de uma criança com um lápis na mão. É destas crianças que o mundo precisa hoje.