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Foto: Pereira Lopes
"Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo
quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando
melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro
antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de
lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é
covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque
sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência,
pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu
lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua
desajeitada e irrefletida permanência".
(Martha Medeiros)
Até então eu tinha um sumiço pra digerir. Que de tão indigesto, deixei a digestão de lado e segui em frente. Agora, subitamente, Marha me explica exatamente o que ele e tantos outros sumiços significam, coisas que poucas almas entendem...e eu, embora não entenda, aprendi a respeitar.

Há quem pense que a escrita é um refúgio. Gente que acredita que escrever é fuga da realidade, que acha que escrever é covardia. Há quem veja os escritores como pessoas solitárias, tímidas, sem a determinação necessária para chegar e dizer tudo aquilo que se sente. Não apenas os escritores consagrados, mas todos os escritores. Os que escrevem romances, crônicas, ficção ou biografias. Escritores de poemas, poesias ou melodias. Até mesmo os escritores de grandes declarações de amor, porque não há declaração que seja pequena, todas são grandes. Mas estes escritores, como tantos outros, são pequenos para muita gente. Pra mim, são gigantescos. Não porque escrevo, mas porque sei o quão difícil é transpôr para o papel tudo aquilo que está escondido na cabeça. Escrever é mais difícil que falar. Porque há como dizer meias verdades, mas não há como escrever mentiras por menor que sejam. Escrever é ato sincero, revelador. E ser sincero hoje em dia é mais que antes um ato de extrema coragem e determinação. Fala-se para pouca gente. Escolhe o momento e fala. Polpa as palavras. Come as vírgulas, disfarça as palavras por trás do sotaque. A palavra escrita não tem onde se esconder senão nos seus significados que nada mais querem que revelar o que está sendo dito. Não se escreve pra si mesmo. E se o faz, é para que as palavras não se percam no inconsciente e venham a tona toda que nós mesmos a tentarmos boicotar. Escrever é enfrentar o próprio medo. Escrever é entregar-se às palavras, se jogar nos braços dela. Escreve aquilo que realmente pensa, aquilo que realmente sente, tudo aquilo que és. Ainda que travestido de personagens fictícios, pessoas irreais, muito há de si mesmo entre vírgulas e pontos. Há sempre uma reticências que deixa claro quem és. E isto só parece medo porque quem não tem a coragem de colocar no papel um pouco de si mesmo. Escrever é covardia daqueles que não tiveram a coragem de escrever quem são.

Foto: Amanda Com
"Eu entro e saio sempre quando tô afim"
(Coisas que eu sei, Dani Carlos)