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Foto: Sérgio Afonso
Parecia acaso. Um dia comum. Era fim de tarde, destes que a gente vê acontecer todos os dias. Não lembram bem onde estavam. Fila de banco. Atravessando a rua. Esperando o ônibus no ponto ou na rodoviária. Sabem que não era uma festa, daquelas que se vai para conhecer alguém interessante. Tinham saído de casa para tudo, menos para conhecer alguém. O dia nem tava tão bonito. Não fazia frio e nem calor. Era um dia comum até se virem. Seria comum se não tivessem notado algo estranho no olhar. Não foram capazes de passar um pelo outro. Ficaram. Seguram o olhar. Enfrentaram o desafio de deixar o outro perceber o seu interesse. Se notaram. Nada mais parecia comum. Já não sabiam se tarde ou noite. Se 5 ou 30 minutos, mas ficaram ali. Ainda hoje estão exatamente naquele lugar que não se sabe exatamente onde. Não sabem o dia, muito menos a hora. Justamente porque o tempo pareceu não passar. Sabem que dali, nunca mais apontaram os pés para outra direção senão a direção comum. Um para o outro. Os dois para o mesmo lado. Sempre á frente. Mas lado a lado. Sabem que podia caminhar distante um do outro, mas descobriram que um sem o outro, em qualquer outra direção, a vida não teria a menor graça.

Foto: Marta Bucher
De todas as coisas bacanas que o amor tem, a que mais me chama a atenção é a cumplicidade. Esta coisa de falar olhando nos olhos, de sentir o tempo parar. De ficar junto sem fazer nada ou fazendo qualquer coisa juntos. Falar no ouvido. Morrer de tanto dar risada. Tomar sorvete sem medo de se lambuzar. Falar bobagens. Contar segredos. Perdoar atrasos. Perder a hora de ir embora. Ficar junto sem ter a noção do tempo. Ir pra cozinha e preparar alguma coisa pra comer. usar avental e ainda achar o outro a coisa mais linda do mundo. Acordar ao lado do outro. Dormir abraçado de conchinha ou qualquer outra posição. Mudar o lado da cama na hora de dormir. Andar na frente um do outro sem roupa e sem o menor pudor. Amar os defeitos. Admirar as qualidades. Sentir saudades. Respeitar a ausência. Saber a hora exata de calar e falar. Ir pra balada. Ficar em casa. Comer pipocas juntos. Ver TV debaixo das cobertas em noites frias. Trocar confidências. Susurrar fantasias. Arrepiar com o toque. Saber que aja o que houver ele ou ela é a pessoa com quem você mais poderá contar. Quem estará ao lado. Quem estará por perto. Aquele ou aquela que transforma a sua vida com a doce presença ainda que distante. Quem te entende através de um olhar. E te abraça, no momento exato que você sente que precisa de colo. De tudo o que o amor pode trazer de bom, a cumplicidade é o que carrega o amor adiante. É aquilo que faltou pro amor não acabar. É aquilo que segura os amores que ficam, que duram, que permanecem para sempre.