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Foto: Olhares.com
"Às nossas costas,
são flores que nos dão?"

Foto: A. M. de Almeida Serra
Não falo do prazer que me deixa culpada. Por que nem todo prazer tem desculpas pra me dar, por mais que eu tente. E se uso o prazer para tapar um outro desprazer, já era. A culpa vem, me rouba o sabor e me deixa o gosto amargo de ter feito a coisa errada, na hora errada. Não, não quero prazeres que me tire o sono, a não ser que seja pelo prazer da companhia. Não quero gemidos que se transformar em gritos e choros. Aliás, nunca os experimentei desta forma. Não perco tempo com culpas que não são minhas. Não gosto de desculpas. Eu quero é o prazer da verdade. O prazer que tem o sabor de bis, de quero mais. Me permito comer chocolate aos pucos que é pra não pesar na consciência. Aos poucos, evito a culpa do prazer que eu tenho em comê-lo. Poupo o prazer para impedir a culpa. E, ainda assim, a culpa vem me atormentar vez ou outra. Bom mesmo é viver o prazer por inteiro, em doses excessivas, até a exaustão. É pegar uma bacia cheia de morangos maduros, colhidos a pouco e devorar, um a um, seguidamente. Lambuzar a boca. Respirar o cheiro de fruta madura. Viver o prazer sem limites e hora pra acabar. Bom mesmo, é ter prazer ao lembrar do prazer que a gente sente. Sinal de que a culpa não veio, não tem espaço. O prazer da lembrança, o prazer que dá vontade de ter ainda mais prazer. Coisas que o chocolate sem sempre é capaz de fazer, assim como tantos outros prazeres que fazemos não tão à vontade, não com tanta entrega. O prazer verdadeiro está nos morangos, não nos chocolates.

"Qualquer idéia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua..."
(Mário Quintana)

Foto: Marcelo Krelling
Era como seu um filme inteiro e sem roteiro passasse por sua cabeça. As cenas rodopiavam como bailarinas no palco. O tempo não modificava as horas. As horas não alteravam o tempo. Ele não passava. Viu cada segundo de sua vida como se fosse fosse um video tape. Parava nas melhores ângulos. Repetia as falas mais importantes, delas e dos outros. Aquilo que disse e tudo o que ouviu. Só assim descobriu quem era. Se reconheceu nos fatos. No olhar de cada pessoa. Nos muitos diálogos que jamais esqueceria. No gosto dos beijos que havia dado e naqueles que deixou de dar. E então, viu que ainda tinha muito o que viver. Levantaria daquele instante para assumir o seu papel. Já não era coadjuvante, agora era a protagonista.