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Foto: António Fery Antunes
Ana, não tinha hábito de escolher. Não conhecia seus gostos. Habituada a fazer aquilo que os outros queriam dela, não aprendeu a decidir sozinha o que queria. Comia o prato que lhe colocava à mesa e, mesmo quando cozinhava, fazia sempre o prato preferido de alguém. Não tinha prato preferido. Comia a preferência dos outros. Favorito, era tudo o que os outros tinham como predileto. Ela não, ela não tinha preferência alguma. A única escolha que fazia, era aceitar a escolha dos outros. Nada mais. E de tanto agradar, acabou desagradada. Ficou sozinha, desacompanhada daqueles de quem ela fora companhia o tempo todo. Ingratos? Não. Apenas pessoas que optaram por ser contrariadas, até mesmo para testar seus valores. Todo mundo precisa de opostos. Todos queremos questionamentos. Ana não, pelo menos não havia sido criada para isto. Mas sozinha, teve que se descobrir. Não dava pra ser vítima o tempo todo. A solidão lhe era uma má companhia, mas suficientemente útil para lhe apresentar aquilo que ela era. Resolveu mudar a fachada da casa. Não sabendo sair para o lado de fora, abriu a janela. Chamou um pintor, que jamais vira antes, e lhe deu a cor da tinta: vermelha. Ele não a aconselhou. Disse a ela que vermelho é uma cor agressiva, vibrante demais. Uma cor que chama muito a atenção, que desperta sentimentos intensos e sensações fortes. Ana não exitou. Disse que a cor era exatamente o que ela precisava experimentar. Ela, que só gostava de brancos, optou pelo vermelho, da mesma cor que seu novo amor devia ter.

Poucas pessoas conseguiram me devolver tanto quanto Fabrício. Desconfiei disto desde que o vi pela primeira vez. Não vou dizer aqui que foi amor à primeira vista, porque acho que amor vem mesmo com o tempo. Mas à primeira vista, rolou sim uma afinidade. Aquela identificação que a gente sente sem saber porquê. Fabrício acredita em coisas que eu também acredito. Fala da infância como uma saudade que não o impede de seguir em frente. Saudade que é lembrança boa e que nos resgata o que somos. Acredita na felicidade e a consegue ver em coisas que até então apenas eu parecia enxergar. Sempre que apontei a felicidade para as pessoas, elas pareciam míopes e mal conseguiam enxergar, tamanha a tristeza que viam. Nunca gostei de pessoas pessimistas, apenas aprendi a aceitá-las. E daí, vejo Fabrício que é tão parecido comigo que me ajudou a me conhecer através dele mesmo. A maneira que escrevo, que é a maneira que ele escreve. As coisas que quero dizer, mas de uma maneira bem mais sublime que a maneira que eu consigo expressar. Fabrício acredita no amor, da mesma forma que acredito. Bem mais no amor que na paixão. Num amor que não tem nada a ver com tesão, embora este seja uma delícia. Acredita no amor que não passa, como os relacionamentos que se dizem hoje baseados num amor que é efêmero. Leio Fabrício como quem lê a si mesmo e aos seus valores. Me reconheço em suas linhas e penso no quanto ainda não estou sozinha. Imagino que tantas outras pessoas têm a mesma idéia que a gente, mas são sabe dizer ou teme dizer. É que ser diferente, acreditar no impossível, exige mesmo coragem. A fé é uma coragem. É isto, Fabrício fala de fé. Um tipo de fé que não costumo ver por aí, mas que descubro em suas palavras. Nelas, reconheço a voz de Deus pregando o amor que é o maior de seus mandamentos. A fé no amor. O amor à fé. Sem isto, não somos nada e nem conseguiremos nada na vida. Sem Fabrício, pouco saberia de mim mesma, tentando me esconder por me achar tão diferente. Fabrício confirma a minha tese, me devolve a mim mesma e com ele, todas as noites converso através da leitura de seus textos. Falo comigo mesma de coisas que acredito e acordo como quem tem a certeza de que algo novo vai acontecer.
Fabrício, este ser que admiro é Fabrício Carpinejar: poeta, escritor e uma alma como poucas e do tipo que o mundo mais precisa. Além disto, é autor de um livro de crônicas que estou degustando aos poucos que é pra não terminar nunca "O amor esquece de começar".