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Foto: Olhares.com
Saía de seu casulo, espremida, espreguiçava. Esticava as asas que nunca havia usado. Não sabia o que era voar. Mal sabia pra quê serviam aquelas coisas grandes e coloridas que amassadas estavam. Sabia ser lagarta, parada, lenta, acomodada. Agora tinha que aprender a ser borboleta. E borboleta que se preze, não arrasta por muito tempo. Pousa, mas não rasteja. Borboleta voa e sabe muito bem por onde vai. Espreguiçava abandonando a preguiça. Esticava as asas antes de arriscar o vôo. Temia a queda, mas era preciso arriscar. Era hora de sair pra fora, pular a janela. Sair do casulo é sempre o primeiro passo de uma borboleta.

Foto: Daniel Oliveira
Se envolver é naturalmente humano. Um ser humano jamais será capaz de relacionar com o outro sem envolvimento. Mas, quanta gente tem medo de se envolver! Penso no quanto isto é estranho, contraditório. É impossível não se envolver diariamente, ainda que não seja de forma amorosa. E se assim é, quanto mais será quando amamos alguém. Nos envolvemos com a forma de olhar, nos envolvemos nos gestos. Nos envolvemos na forma com que o outro fala de si mesmo e da vida. Nos envolvemos com o tom de voz, com a forma com que toca a sua pele ou pega na sua mão. Envolver é o que torna os seres humanos pessoas interessantes. Pessoas e não coisas. Quem não se envolve, coisifica. Deixa de ser gente. Se torna frio como uma estátua de pedra, que pode ser belo como as esculturas gregas mas geladas e sem sensações. Nada paga o coração acelerado, a respiração ofegante dos apaixonados. Isto é paixão. Paixão é envolvimento. Se não fosse, passaria batido, não teria graça. E a gente passaria a vida sozinhos, sem notar ninguém, sem notar nós mesmos. Sem envolvimento não temos graça, não vemos graça. Viver é envolver-se no outro, permitir-se correr o risco de se envolver em vão, embora só seja em vão no se envolver.

Amores são como os brinquedos que tinha na infância. Não podiam viver espalhados. Não os tinha para ser emprestados, nem doados. Tinha medo de que não tivesse outro. Por isto, não aprendeu a dar os seus brinquedos, assim como não doava seus amores. Guardava-os todos numa caixa, em cima do armário de forma que ninguém pudesse alcançá-los. Quando brincava com eles, o fazia escondida, o segurava com cuidado que era pra não cair e pra ninguém ver. Amores, como aqueles brinquedos, não podiam se arranhar, quebrar em pedaços. Não dava para colar e juntar os cacos de forma a deixá-los perfeitos, como os originais. Amores quebrados, deixavam marcas na alma. Assim como os brinquedos, ficavam rachados. Tanto um quanto outro, se tornavam mais frágeis a cada queda. E ela, assim como nós, mais insegura com eles. Aprendeu a não revelar amores, como havia sido ensinada quando ganhava um brinquedo novo. Os amiguinhos não podiam ficar com inveja, era tão ruim pra eles quanto pra ela mesma. Sentia culpa quando amava de verdade. E pra não doer, pra não perder o sono, deixava o amor quietinho dentro dela que era pra ninguém saber. Claro que vez ou outra alguém desconfiava. Moça bonita, não fica assim, desapaixonada da vida. Mas ela, preferia fingir-se insensível para o mundo, ao invés de mostrar quantos amores ela colecionava ali dentro.

Foto: Miguel Moura
Somos aquilo que somos. Estamos onde estamos. Penso se somos o que somos porque estamos onde estamos. Ou senão, penso se estamos onde estamos porque somos o que somos. As vezes, acho que apenas pareço ser. Não, não pareço. Sou de verdade aquilo que sou. O que é aparente é engano. Eu não sou um engano. Nem equívoco. Sou uma busca incessante pelo acerto, ainda que travestido de erros. Mas acerto. Só não tenho a certeza de onde estou. Até tenho, mas não sei por quê estou aqui. Também, só pra variar, não sei porque sou assim. Desconfio de um motivo ou outro, é verdde. Mas certeza mesmo, não tenho alguma. Por isto, insisto em pensar nestas bobagens tão sérias. Esta estranha relação de estar onde estou com aquilo que sou. Ser o que sou. Aquilo que você é, se é o que é de verdade. A dificuldade de não saber onde se vai deve passar por aí. Deve permear a dúvida de não entender porque estamos onde estamos. Será que somos, de verdade? Espero que, ao menos, tenhamos tentado ser alguma coisa. Mas se vier a ser outro, se for possível isto, o lugar será que muda? Sei onde quero chegar, mas o caminho me parece confuso e estranho. Tento mudar onde estou por aquilo que sou, mas não sei ser outra senão eu mesma. E se continuar sendo eu mesma, o tempo todo, não terei nenhuma outra saída? Ou a saída está justamente em ser aquilo que se é? Penso, logo existo. Arrisco dizer que existir não seja apenas pensar. Disconfio que existir é mover, ainda que seja pra qualquer lugar que não seja qualquer um. Qualquer um é nada. Qualquer lugar, é um específico ou vários, mas é alguma coisa. É tanto quanto eu, quanto você, que não somos qualquer um. Somos o que somos. Estamos onde estamos. E meu pensamento, que não diz exatamente quem sou, não pára de pensar. Não cala, não sara a insistência em saber: estamos onde estamos porque somos o que somos?

Foto: Nuno Belo
O amor é um espetáculo. Tudo bem, que um espetáculo que as vezes tem um custo alto. Outras vezes, pode parecer barato, como o que surge de graça sem que a gente merecesse participar dele. É um espetáculo da sorte, do acaso. Ou então, um espetáculo do destino se assim preferir. Desencontrado, muitas vezes, o amor não tem relógio pra acontecer e nem despertador previamente programado. Ele apita quando bem entender. E acelera o coração que sai apressado em busca daquilo que deseja. Se bem, que há quem se esconda de medo, debaixo da mesa, para não enfrentar o amor que bate à porta. É, o amor assusta e encoraja. Temido pelos fracos e desejado pelos aventureiros. Amor é bom pra quem quer ter histórias pra contar. O Alzheimer é capaz de levar tudo embora, mas as lembranças de um amor ficam pra eternidade, jamais caem no esquecimento. Amor não tem idade, está sempre em cartaz e temporada de moda. Muda-se os espectadores. Muda-se o olhar a respeito dele. Mas ele, o amor, é sempre o mesmo pra todo mundo, por mais que encaremos de forma diferente uns dos outros. O amor é uma arte, há de ser artista para lidar com ele. Contorcionismos, malabares, poetas, escritores, trapezistas. É necessário sensibilidade para percebê-lo acontecer. O amor é um espetáculo que acontece o tempo todo na vida da gente.