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Foto: Olhares
Apesar das regras, dos limites, tinha vontade de viver. Não era triste, a tristeza não era boa companhia. Ainda que trancada, apreciava o que acontecia do lado de fora e passava horas imaginando como tudo seria quando ela saísse dali. Desejava sair enquanto era criança, pra poder bincar de roda e esconde-esconde com seus amigos até então imaginários. Era sozinha, mas não se sentia só. Sua imaginação lhe trazia companhias que ela tinha certeza que ainda iria ter. Teria irmãos e iria brincar com eles no gramado do jardim. Cumprimentaria estranhos. Andaria de bicicleta por toda a vizinhança. Era alegre por saber que tudo aquilo não passava de uma barreira que ela ainda ia vencer. Era só uma porta, uma janela. Do lado de fora tudo acontecia, assim como todas as coisas que aconteciam dentro de sua cabecinha. Um dia, ela sabia, abriria aquela porta e o mundo estaria ali prontinho pra que ela pudesse acontecer.

Era promíscua, é verdade. Não conseguia ser mulher de uma paixão só. Se apaixonava todos os dias. As vezes, mais de uma vez ao dia. Já havia experimentado todo tipo de paixão. À primeira vista era a sua preferida. Quase sempre era assim, batia o olho e logo o coração palpitava. Parecia que ia sair pela boca. Outras vezes, esta sensação vinha misturada a uma certa tontura. Tontura tipo aquelas que a gente sente quando parece pisar nas nuvens. E ela, praticamente morava nelas. Não, não era uma mulher alienada da vida real. Tinha lá seus afazeres humanos e mundanos como todo outro ser. Acordava cedo e ia ao trabalho. Comia com pressa. Frequentava academias pra cuidar do corpo. Era vaidosa. Sentia medo, algumas vezes. Um medo que a incomodava e que ela tentava combater, mas sentia. Cuidava do seu cão. Queria ter sua própria casa. Estudava. Lia. Mas nada fazia tão bem quanto se apaixonar. Nisto, ela era mesmo uma especialista. Se apaixonava como poucos. Não era daquelas paixões totalmente obsessivas. Era ciumenta, é verdade. Mas nada que arranhasse carros em shopping, furasse pneu pro cara não sair de casa. Nem exigia tanto assim a posse, embora pensar que o fruto de sua paixão pudesse ser todo dela era inevitável. Mas ao mesmo tempo, um pouco sem graça. Gostava mesmo é dos riscos. Por isto, se apaixonava mais vezes do que amava. Acreditava que só depois de viver a paixão estaria preparada pra amar de verdade. Apostava na paixão. Ou melhor, a paixão apostava nela o tempo todo. E ganhava. E não tinha esta de uma paixão de cada vez não. Tinha logo era várias de uma vez. Uma, duas, três e quantas mais viessem. O bom da paixão é mesmo esta desobrigação com a fidelidade. Paixão dá uma certa liberdade na gente e é disto que ela gostava. Por isto se apaixonava por árvores, bichos e plantas. Quer dizer, plantas menos que todas estas coisas. Se apaixonava por gente simples. Se apaixonava por um olhar doce. Era completamente apaixonada por olhos nos olhos. Gostava de gente que a desafiasse no olhar. Se apaixonava sempre por animais carinhos e músicas boas. Se apaixonava pelas lembranças gostosas de criança e pela convivência com a família e sua história. Se apaixonava por pessoas que também se deixavam apaixonar. Pessoas raras, mas que a conquistavam como poucos ou nenhum outro. Se apaixonava pela paixão das pessoas tanto quanto pelas suas próprias paixões. Era apaixonada por causas e sonhos. Apaixonada por coragem e audácia. Apaixonada por franqueza e sinceridade, sempre misturados com amabilidade. Se apaixonava sempre por gente verdadeira. Se apaixonava pela fé, assim como era completamente apaixonada pela origem desta fé. Mas era pequena, ainda jovem. Mal havia aprendido a caminhar e se entregava a estas paixões. Estas paixões que não cabiam em seu corpo. Estas paixões que transbordavam em sua alma e que inundavam seu coração.