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Foto: Diogo Ramos Moreira
Levantou da cama mais cedo. Não era habitual acordar assim, por volta das oito horas da manhã. Costumava dormir até tarde, praticamente todos os dias. Sentiu o próprio corpo pra atestar se algum mal havia lhe despertado do sono. Não, estava bem. Passou pelo corredor do quarto, atravessou e seguiu para o banheiro. Olhou-se no espelho. Acreditava que fosse encontrar ali sinais de uma noite dormida aquém do que merecera. Engano. Ao se ver, logo percebera que havia acordado mais mulher. Não sabia se era algum sonho que tivera ou se o tempo havia passado mais depressa naquela noite mais curta. Não tinha nenhum pé de galinha, portanto, não era o tempo. Dos sonhos,ela também não recordava. Talvez fosse sensual demais para se relembrado. Bobagem! Sua sensualidade havia acordado com ela de uma maneira que ela jamais havia se percebido. Tão menina, tão moça. Mas era uma mulher, com toda a sensualidade e feminilidade que uma mulher deve ter. E então, resolveu se revelar ao mundo desta maneira. Assumiu o seu lado sexy que jamais admiitira ter visto antes. Escondia por detrás dos vestidos longos, sem muitas cavas. Agora, pelo contrário, estava pronta pra vestir aquele vestido de malha fria, curto e revelar aquilo que era. Não, não precisava ser desejada pelos homens para saber-se bonita. No espelho, sabia que já era. Mas é que se sentia preparada para enfrentar os olhares, despertar os desejos e decidir ao certo o que iria fazer com eles.

Foto: Daniel Oliveira
O mundo pode ser em preto e branco. Sem cor, ou todo preto como alguns dizem ver o mundo por aí. O mundo pode ser da maneira que você o vê, indelicado ou destemido. Desbotado, como costuma nos apresentar na maior parte das vezes. Este é o mundo, não somos nós. Ainda que nele não vemos cores, não é sinal de que ele não as tem em nenhum lugar. Se está escuro, nem sempre a melhor saída é ficar parado ou escondido. Não temas o escuro, o bréu ou o cinza dos dias de chuva. Não tenha medo de desbotar as cores que existem dentro de você, porque não desbotam sem você permitir. Calce as cores que acredita ter. Vista-se do seu manto multicolorido. E ande. Ande para onde quiser. Vá pra onde acredita. Siga pra qualquer lugar que não seja lugar nenhum. Andar nas cores é a melhor maneira de não perceber a ausência de cor que existe ao redor.

Foto: Olhares.com
Opostos que se complementam sem ter que faltar absolutamente nada. Sem este papo que são opostos que se atraem, já que é sempre necessário um pouco de afinidade para que as coisas que encaixem bem. Aliás, há de se encaixar direito que é pra não vacilar no passo. Não se pode perder a elegância enquanto caminha rumo onde se quer chegar. É preciso passos firmes e seguros, sem tropeços e olhar ao lado. Há de chamar a atenção, sem ser chocante ou extremamente exagerado. Ser percebido, não perseguido. Discrição ainda que revele um pouco da sua personalidade marcante, seu temperamento forte, sem ser arrogante. Divertido sem virar palhaçada ou chacota na boca de ninguém, nem nos pés. Ousados sem acuar a presa. Agressivos, sem deixar marcas profundas senão as que palpitam no coração de um ou outro homem apaixonado. Assim como fazem as mulheres mais sedutoras, e nenhum pouco vulgares. Aquelas que prendem o olhar sem decotes. Todas estas mulheres que revelam misteriosamente a que vieram, para quê vieram. Somente estas mulheres usam com propriedade um scarpin vermelho. É somente para estas, e não para outras, que foram feitos. Só nestes pés, destas mulheres, eles se encaixam com personalidade.

Foto: Olhares.com
Era andando pelas ruas que viam logo de cara o seu charme. Não tinha idade suficiente, bem era verdade, mas já deve pra perceber que a mulher que se tornaria ao crescer. Caminhava com segurança e delicadeza. Um vestido comportado, que mostrava o contorno das pernas gordinhas, tipicamente charmosas para sua infância de dois ou três anos. Embora não usasse saltos, vez ou outra parava a caminhada e, com cuidado, arrumava os sapatos nos pés como quem ajusta a tira da sandália, sem perder a elegância. Na cabeça, as fantasias de uma vida de fadas e princesas, borboletas coloridas, ainda que na rua estivesse tudo sujo e escuro, como acontece na realidade urbana da vida da gente. E, de tanto acreditar naquilo que imaginava, levava cores por onde quer que passasse. A atenção das pessoas se voltavam pra ela, pro seu andar firme e decidido, seus sapatos vermelhos e vestido estampado, sua pele branca e seu sorriso na boca, cheio de dentes tão novos e brancos como as nuvens que ela imaginava ver no céu cinza de São Paulo.

Foto: Filipe R. Silva
Não importa este seu jeito natural de ver as coisas. Não me importo com seu sorriso escancarado quando falo sério. Os olhos apertados que se fecham toda vez que fico brava e te chamo a atenção. Não me importo com seu bom humor exagerado. Esta sua voz macia e deliciosa ao meu ouvido, em qualquer lugar, a qualquer hora e muitas vezes em momentos que eu nem imaginava ter você por perto. Não me preocupa o seu jeito desastrado de derrubar as coisas, de quebrar os copos. Gosto de ver você pegar a água com as mãos e lavar o rosto pela manhã, desamassando a rosto que amarroto à noite com muito prazer. Este seu jeito de fazer piada de si mesmo, de mim mesma, da vida que a gente leva e tenta levar a sério a vida inteira. Eu gosto deste seu queixo quadrado ainda que fosse redondo, dos cabelos pretos mesmo que fossem loiros. Gosto do seu corpo sarado ainda que com alguns quilos a mais, seria uma excelente desculpa pra ir com você à academia ou correr à beira da lagoa todo domingo de manhã. Não me importo dividir com você a cama e os sonhos. Não me importo de imaginar não ser mais sozinha o resto da minha vida e ter você comigo pra viver a minha história e dar palpites ainda que furados, eu vou morrer de rir. Eu não me importo com seus excessos de qualidades e defeitos o tempo todo, porque é exatamente isto que me agrada e surpreende em você. Não me importa quanto tempo tem, quanto tempo vai ficar aqui, porque não me importa o jeito que você é se você pode ser exatamente tudo o que eu gostaria de ter.