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Foto: Ana Franco
Nesta cidade
Chamada eu
Sou turista
De onde moro
Mas que pouco sei
Percorro ruas
Avenidas
Transito parado
Engarrafamento
Casas que nunca visitei
Desconhecidos
Novos e velhos amigos
Eu mesma
Muito prazer

Foto: Daniel Oliveira
Sempre desconfiei de amores à primeira vista. Nunca consegui me apaixonar por alguém que acabei de ver. Ninguém nos elevadores. Nenhuma pessoa atravessando a rua. Na poltrona ao lado do cinema, nada. Nenhum motorista do carro ao lado no engarrafamento, nem nenhum entregar do pizza um pouco ou mais apresentável. Atraentes, estes já conheci vários. Homens que enchessem meus olhos, mas nada que alcançasse meu coração. Batidos cardíacos nunca foram alterados por alguém que não sei o nome. Um arrepio talvez, mas muito passageiro. Nada que despertasse pouco mais que a minha atenção. À primeira vista, não percebo os detalhes. Sempre precisei de mais tempo para enxergar mais fundo. A pressa me deixa na superficialidade e nela, não consigo me apaixonar. Meus amores têm necessidade de demora. Não sabem acontecer com pressa. Sou mesmo uma típica feminina, não me apaixono pelo que vejo como os homens, se é que se chama paixão o que eles sentem pelo que vêem. Eu, não. Meus amores têm bons ouvidos, acontecem pelo som e tom de voz de alguém. Bom humor então, é excelente para fazê-los florescer. Adoro uma risada sincera e cheia de vontade. À primeira vista, não aprendi a amar ninguém. Meus amores acontecem pelos defeitos que só aparecem com o tempo. Eles não me permitem amar apenas as qualidades. Me apaixono pela história que crio com alguém, pela forma com que foi capaz de entrar na minha vida e pelo jeito que nela consegue se instalar. Me apaixono mais pelo cotidiano que por um instante. Minha paixão não é tão passageira como aquele segundo à primeira vista. É preciso olhar de novo, um olhar atento. Presto atenção pra me apaixonar e ainda assim, minha paixão me surpreende. Antes de me apaixonar, já sou amiga, colega ou qualquer outra coisa. Jamais uma passante pela rua. Não gosto de ser passageira, preciso ficar. Do mesmo modo que gosto que fiquem, de uma maneira gostosa nas minhas lembranças cada uma das minhas paixões, ainda que não durem a vida inteira. E não duram. Me apaixono não à primeira vista. Olho de novo, com jeito. E é só à segunda vista que percebo o coração disparar, o corpo tremer e o pensamento voar por desejos que até então não sabia o nome. Sempre desconfiei de amores à primeira vista. Desconfio que é à segunda vista, que eu vou me apaixonar.