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Foto: Daniel Oliveira
O mundo pode ser em preto e branco. Sem cor, ou todo preto como alguns dizem ver o mundo por aí. O mundo pode ser da maneira que você o vê, indelicado ou destemido. Desbotado, como costuma nos apresentar na maior parte das vezes. Este é o mundo, não somos nós. Ainda que nele não vemos cores, não é sinal de que ele não as tem em nenhum lugar. Se está escuro, nem sempre a melhor saída é ficar parado ou escondido. Não temas o escuro, o bréu ou o cinza dos dias de chuva. Não tenha medo de desbotar as cores que existem dentro de você, porque não desbotam sem você permitir. Calce as cores que acredita ter. Vista-se do seu manto multicolorido. E ande. Ande para onde quiser. Vá pra onde acredita. Siga pra qualquer lugar que não seja lugar nenhum. Andar nas cores é a melhor maneira de não perceber a ausência de cor que existe ao redor.

Foto: Olhares.com
Opostos que se complementam sem ter que faltar absolutamente nada. Sem este papo que são opostos que se atraem, já que é sempre necessário um pouco de afinidade para que as coisas que encaixem bem. Aliás, há de se encaixar direito que é pra não vacilar no passo. Não se pode perder a elegância enquanto caminha rumo onde se quer chegar. É preciso passos firmes e seguros, sem tropeços e olhar ao lado. Há de chamar a atenção, sem ser chocante ou extremamente exagerado. Ser percebido, não perseguido. Discrição ainda que revele um pouco da sua personalidade marcante, seu temperamento forte, sem ser arrogante. Divertido sem virar palhaçada ou chacota na boca de ninguém, nem nos pés. Ousados sem acuar a presa. Agressivos, sem deixar marcas profundas senão as que palpitam no coração de um ou outro homem apaixonado. Assim como fazem as mulheres mais sedutoras, e nenhum pouco vulgares. Aquelas que prendem o olhar sem decotes. Todas estas mulheres que revelam misteriosamente a que vieram, para quê vieram. Somente estas mulheres usam com propriedade um scarpin vermelho. É somente para estas, e não para outras, que foram feitos. Só nestes pés, destas mulheres, eles se encaixam com personalidade.

Foto: Olhares.com
Era andando pelas ruas que viam logo de cara o seu charme. Não tinha idade suficiente, bem era verdade, mas já deve pra perceber que a mulher que se tornaria ao crescer. Caminhava com segurança e delicadeza. Um vestido comportado, que mostrava o contorno das pernas gordinhas, tipicamente charmosas para sua infância de dois ou três anos. Embora não usasse saltos, vez ou outra parava a caminhada e, com cuidado, arrumava os sapatos nos pés como quem ajusta a tira da sandália, sem perder a elegância. Na cabeça, as fantasias de uma vida de fadas e princesas, borboletas coloridas, ainda que na rua estivesse tudo sujo e escuro, como acontece na realidade urbana da vida da gente. E, de tanto acreditar naquilo que imaginava, levava cores por onde quer que passasse. A atenção das pessoas se voltavam pra ela, pro seu andar firme e decidido, seus sapatos vermelhos e vestido estampado, sua pele branca e seu sorriso na boca, cheio de dentes tão novos e brancos como as nuvens que ela imaginava ver no céu cinza de São Paulo.