| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |
| 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
| 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |
| 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 |
| 29 | 30 |

Foto: Pedro Miguel Pacheco
Sem pensar em nada. Assim, como quem nada quisesse e tudo pudesse ter, o que não deixa de ser verdade. Deitar e rolar na grama em dia de primavera. Estar rodeada de flores. Soprar dente de leão pelos ares, como quem eleva os seus sonhos para onde eles devem estar, no alto. Viajar, ainda que não saia do lugar. Deixar rolar o pensamento, solto. Sorrir pra si mesmo, rir de si mesmo. Descansar a mente e o corpo. Fluir a energia boa que temos dentro de nós e deixar escapar aquela que há de ruim. Transbordar de boas lembranças. Sentir o cheiro do mato, das flores, da vida. Ouvir a própria respiração. Acompanhar o movimento das nuvens. Aproveitar o calor do sol e o sopro do vento. Viver, simplesmente viver. Por que o que achamos que é vida é o que nos retira dela, viver é mesmo só isto, deste jeito simples. Viver é simples assim.

Foto: Shutterstock
Esperança é saber esperar
Sem pressa, nem desassossego.
Esperar com esperança
Acreditar no que virá
Esperança é crer
Crescer em esperança
Apostar no impossível
Enxergar o que está além
Do alcance dos olhos
Alcance das mãos
Ver o que está aqui dentro
No fundo do coração.

Eu podia falar das rosas. Falar do perfume que elas exalam por todos os lugares. Podia falar do símbolo que carregam consigo. Do vermelho que simboliza a paixão. Do amarelo que simboliza amizade. Do rosa das rosas que representam ternura e carinho. Delicado seria falar das rosas e tudo aquilo que são, mas não têm sido. E por não mais ser, não sei dizer delas nada além do que já foram um dia. Sei apenas dos espaços que perderam nos jardins. Dos solitários vazios das moças apaixonadas esperando por uma rosa de seu amigo, ainda que roubada de qualquer esquina perto de casa. As rosas não têm mais jardim para serem colhidas. Assim como os amores, deixaram de ser regadas. O murchar da rosa perdeu o sentido depois que vieram as rosas artificiais, carregadas de sentimentos igualmente artificiais que insistem em chamar de amor, de amizade ou de qualquer um destes sentimentos bacanas que poucos conhecem de perto. Estamos todos que nem as rosas, esvaziados de sentido. Substituídos pelo plastificado. Secos de sentimentos que não nos permitem carregar. Deixando de ser vivo porque ser vivo e gente dá trabalho e ninguém tem tempo pra isto. As rosas artificiais ocupam espaço na vida das pessoas que querem se mostrar sensíveis e não são. As rosas verdadeiras, estão em algum lugar prontas para serem colhidas, regadas e depois de murchas, ocupar algum miolo de livro grosso carregada de lembranças sinceras que um dia a gente conseguiu viver. E não falo das rosas, eu falo é destas coisas todas que a gente nem sabe mais o nome, mas que não me esqueço.

Foto: Tiago Xavier
Cansei do amor que vejo nos telejornais, todos tão sensacionalistas. Eles, todos, independente do canal, tentam me convencer que o amor é amor bandido. Eles me vendem um amor que não quero comprar, ainda que tenha dinheiro pra isto. Eu quero é pagar caro que é pra fazer sentido. Não quero amor barato que se mata por um trocado, que se rouba por ciúmes ou possessão. Este amor que vemos em qualquer esquina, que se comercializa nos camelôs de qualquer cidade grande. Não quero amor de sinais de trânsito, de pontos de ônibus, de tiroteio em faculdades. Não quero um amor capaz de tudo pelo amor e nada pelo respeito ao outro. Amor isolado é perigoso e eu não quero correr este tipo de risco pra depois saber que não era amor. Cansei dos amores dos programas da tarde. Estes que traem, que são compulsivos, que perdem as estribeiras por pura inconsequência. Amores que os fins justificam os meios é amor psicopata e eu quero amor doente e incurável. Que seja capaz de passar, se tiver prazo de validade. Que seja eterno apenas enquanto dure, mas que que valha a pena durante todo este tempo ainda que seja pouco. Que tenha riscos de morrer, que precise ser regado o tempo inteiro. Mas um amor que jamais tenha que ser vigiado ou controlado, um amor amado que só o amor segura o amor do risco de ir embora. Não quero que minha vida seja cena de televisão ou telenovela. Gosto de amor cinematográfico. Não, não gosto dos contos de fadas porque amor não é ser feliz pra sempre, mas é ser feliz o tempo inteiro, ainda que dividido em fatias. Gosto de imaginar meu amor num telão de cinema, enquanto como pipocas atenta a cada cena. Gosto é de viver o roteiro, das luzes apagadas e o clarão dos instantes. Da sensação de assistir ao meu filme, ao lado de alguém que só de encostar os braços no meu dá aquela vontade de estar mais perto, de ficar mais tempo. Cinematográfico é o amor que me dá vontade de voltar pra casa, depois de um dia inteiro de trabalho. Um amor pra recostar nos ombros. Um amor pra morrer de rir como numa comédia. Nada de suspenses, nem muita ação. Uma aventura que é pra ter adrenalina nas veias. Mas depois, um momento de descanso nos braços da mocinha ou do galã que você escolheu pra ser protagonista deste filme com você.

Foto: Cristina Afonso
No eco dos passos, as pétalas. Estas mesmas pétalas que preenchem o vazio da ausência ou prenunciam a sua chegada. O caminho entre nós dois é cinza, cor em preto e branco. Só as pétalas colorem aquilo que desbotou entre nós dois. A ausência do seu nome, do seu sobrenome. O endereço da sua casa que você não me contou e eu não soube adivinhar. Esta distância entre presenças tão marcantes que a gente não soube cultivar, fazer durar. E não dura mesmo, mais que um segundo o segundo que a gente vive, junto ou separados. É um instante como o instante em que uma pétala cai da rosa da saudade e do amor que fica entre eu e você. A sua presença acorda a plenitude a que as coisas tinham sido destinadas. Um destino que não sei o rumo, mas que me rege e também deve regir você. Na mesma direção, em direção contrárias, não importa. As pétalas são as marcas dos passos que já damos juntos. Também, são as marcas dos passos que damos em outras direções, ainda que separados. Pétalas nem sempre são apenas a presença física de alguém, nem delas mesmas. São muito mais as lembranças do que ela representa, do que já foi e dos momentos nos quais ela fez parte. Entre pétalas, a gente segue o nosso caminho, às vezes sem saber a direção. Às vezes, em rumos diferentes e tão distintos. O teu e o meu andar é a beleza das estradas, estas pétalas que deixamos pra trás em cada passo que já foi nosso ou que um dia será.