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Foto: Hugo Macedo
Não sei se era o verde da grama ou se era apenas pelo fato de ser grama. Só sei que sempre que ela estava assim, meio preocupada, parava tudo por um instante. Deixava cadernos e livros de lado, abandonava o computador e todos os seus documentos digitados pela madrugada a fora. De preferência, no início da manhã ou fim da tarde, ela se demitia de suas preocupações por um segundo para deitar na grama. Algumas vezes, deitava na grama do jardim da sua casa mesmo. Outras, ela seguia até um parque ou praça da cidade e lá se jogava ao chão, misturando seu corpo com a grama que era pra ver se absorvia o verde para suas esperanças tão desbotadas. Passava horas olhando pro nada ou pra dentro de si mesma. Se via através das folhas das árvores que dançavam com o vento e depois se jogavam também ao chão, como ela fazia. Ouvia o riso das crianças que por ali passavam, sentia o pulsar do seu coração que a mantinha viva e pronta pra perceber todas estas coisas ao seu redor. Deitava na grama, seja de onde for, ela recarregava suas energias como quem se atira debaixo de cachoeiras ou volta pra sua cidade natal, no interior de um Estado qualquer. Não sei se era o verde da grama ou a própria grama em si, mas toda vez que ela voltava de lá, parecia ainda mais bonita que antes, mais jovem que jamais tivera sido. A grama, nada mais. E ninguém, nem ela mesma, jamais soube explicar o que acontecia naqueles instantes ali, estirada. Não sei se a grama, não sei se o verde. Talvez fosse ela mesma que usava a grama como tapete de suas mais complexas e perfeitas reflexões.