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Danço como tantas outras. Danço como os outros. Moços tolos que não sabem tirar uma dama pra dançar. Danço fora do ritmo. Naquele ritmo que você insiste em tocar. E eu só queria tocar você. Dancei. Não como todas as outras porque cada uma tem seu jeito de dançar. Dois pra lá. Dois pra cá. Bolero. Tango. Salsa. Forró. Menos a valsa que embala os amantes. Danço fora do seu ritmo. Talvez porque você não consiga acompanhar meu passo. Embora no mesmo espaço, há descompasso entre nós dois. Danço, embora tímida. Embora louca por você. Queria dançar contigo a noite inteira. Um samba de gafieira até o sol nascer. Virar a madrugada, tomar uma gelada do jeito que Deus quiser. Danço porque um dia acreditei que viesse pra pista comigo. Pensei que soubesse me guiar pros seus passos, sem pisar no meu pé. Doeu. Menos do que a vontade de te ter e não te encontrar. Dói menos que insistir que você vai voltar pra me tirar pra dançar. Ah, se eu soubesse sentar pra esperar, esperaria você chegar. Mas tenho pressa. Antes que a música acabe, quero um par. Era você enquanto eu pude querer, agora não posso mais. Preciso esquecer a dança que ensaiei com você. As noites que perdi pensando. A insônia que ganhei sonhando acordada. Todas as vezes que me peguei cantando nós dois, foi em vão. Agora estou aqui na pista, numa melodia que não sei cantar. Só sei dançar deste jeito e nisto terei prazer, mesmo que seja sem você.

"A chuva tá caindo e quando a chuva começa eu acabo perdendo a cabeça. Não saia do meu lado, segura o meu pierrot molhado, vamos embora ladeira abaixo, acho que a chuva ajuda a gente a se ver"
(Caetano - Chuva, suor e cerveja)

Passou a tarde esperando o telefone tocar.
Sentia-se ridícula por isto. Mas a ansiedade era maior que seus 1.65m de altura.
Tentou deixar o telefone de lado.
Fingiu não esperar por aquele som dele tocando ou pelo vibrar de uma nova mensagem.
Sentia-se infantil, coisa que odiava sentir desde pequena.
Era uma adulta. Uma adulta ansiosa e controladora. Uma adulta que não controlada sequer a sua vontade de falar com ele. Não controlava a saudade.
Descontrolada, ligou o som no último volume.
Não lembro bem a música que tocava. Lembro que ela dançou a noite inteira.
Dançou pra esquecer o que não conseguia. E não esqueceu. Apenas dormiu até chegar um novo dia. Um outro dia completamente igual.
Foto: Pedro Moreira

Preparou a cama. Vestiu-se de amor cor de rosa. Não conteve o sorriso. Estava estonteantemente alegre. A alegria era mesmo sexy. O bom humor era seu maior afrodisíaco. Não importava de esperar. Tinha certeza que ele chegaria na hora certa. Nem cedo e nem tarde demais. Queria estar pronta. Já estava. Agora era curtir este último momento de lucidez até que o prazer lhe roubasse a razão e ela se entregasse ao orgasmo da emoção.
Foto: Amanda Com