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Foto: Helder Mendes
Abandonada
Sem nada
Nem dono
Sozinha
Sem bando
Apenas sendo
Sem nada ser.

Foto: Iva Silva
Era como se tudo ao redor caminhasse como um metrô que não parava em qualquer estação. Como um metrô que não parava, que seguia em frente, ia adiante, sem ter tempo para que mais ninguém subisse nele. Era a velocidade da vida passando assim, bem ao lado, sem hora pra esperar. Como se quisesse ser esperada. Não queria. Não passaria toda a sua vida correndo sabe-se lá para onde. Jamais subiria num trem pra sair percorrendo o mundo como se fosse o último segundo de sua vida. Perderia tempo se preciso fosse para perceber os detalhes. Gastaria mais tempo naquilo que a fizesse melhor, que fizesse se sentir melhor. Era melhor assim, parada. Correndo, não enxergava direito, nem mesmo a si mesma. Com a respiração ofegante, não se sente o cheiro das rosas nem se reconhece os espinhos. Machuca-se e pronto, sem ao menos saber porquê. Ali, parada, gastava seu tempo naquilo que acreditava ser importante. Aproveitava seu tempo com o que interessa. Ao lado, tudo passava depressa. Ela permanecia. Não sabia por quanto tempo ficaria ali, ficaria apenas o necessário. O suficiente era o tempo que ela queria ficar onde quisesse, onde bem entendesse. Era assim que se entendia, sem pressa. Era assim que queria gastar seu tempo, aos poucos, como costumava ler seus livros preferidos. Investia na vida, assim como gostava de ler, sem pressa pra acabar.

Foto: Hugo Macedo
Não sei se era o verde da grama ou se era apenas pelo fato de ser grama. Só sei que sempre que ela estava assim, meio preocupada, parava tudo por um instante. Deixava cadernos e livros de lado, abandonava o computador e todos os seus documentos digitados pela madrugada a fora. De preferência, no início da manhã ou fim da tarde, ela se demitia de suas preocupações por um segundo para deitar na grama. Algumas vezes, deitava na grama do jardim da sua casa mesmo. Outras, ela seguia até um parque ou praça da cidade e lá se jogava ao chão, misturando seu corpo com a grama que era pra ver se absorvia o verde para suas esperanças tão desbotadas. Passava horas olhando pro nada ou pra dentro de si mesma. Se via através das folhas das árvores que dançavam com o vento e depois se jogavam também ao chão, como ela fazia. Ouvia o riso das crianças que por ali passavam, sentia o pulsar do seu coração que a mantinha viva e pronta pra perceber todas estas coisas ao seu redor. Deitava na grama, seja de onde for, ela recarregava suas energias como quem se atira debaixo de cachoeiras ou volta pra sua cidade natal, no interior de um Estado qualquer. Não sei se era o verde da grama ou a própria grama em si, mas toda vez que ela voltava de lá, parecia ainda mais bonita que antes, mais jovem que jamais tivera sido. A grama, nada mais. E ninguém, nem ela mesma, jamais soube explicar o que acontecia naqueles instantes ali, estirada. Não sei se a grama, não sei se o verde. Talvez fosse ela mesma que usava a grama como tapete de suas mais complexas e perfeitas reflexões.

Foto: Daniel Oliveira
Embora fosse homem, jovem ainda, tinha desejos que a maioria dos outros homens também tinham, mas preferiam esconder. Sabemos que todo homem, lá no fundo, sempre quer uma mulher que cuide dele, assim como a sua mãe ou qualquer outra substituta para este cargo tenha feito por ele na infância. José, diferente da maioria que se esconde por trás de máscaras da brutalidade e frieza, assumia este seu desejo enlouquecido por ser amado profundamente por uma mulher. Mais que ser amado por ele, ele queria se perder de amor e se encontrar todas as noites nos braços desta com quem passaria o resto da sua vida. Ela ainda não tinha nome. Não sabia onde morava, nem qual esquina iria encontrar com ela. Sem identidade, sem endereço, mas totalmente pintada na sua imaginação. Olhava amores de revistas e se via no papel daqueles homens. Enxergava também a sua amada no rosto daquelas que se pareciam mais apaixonadas e alegres. Era assim que ele queria sua amada, apaixonada e feliz por tê-lo escolhido amar. Enquanto via revistas e sonhava com ela, quase sempre todas as noites, já amava. Amava como se já estivesse com ela, sem se importar de ainda não tê-la. O que ele sabia é que iria ter e então, já estaria pronto pra viver um amor que desde muito antes já havia nascido dentro dele.